Para Inspirar

Por que a terapia funciona?

Para pesquisadora, encontro entre paciente e psicólogo vai além da mera conversa e é mais profundo do que o tratamento clínico

15 de Janeiro de 2020


De acordo com estudos, a terapia psicológica parece funcionar tão bem quanto os remédios (e, sugerem pesquisas, ela é possivelmente melhor a longo prazo). Duas pessoas se sentam em uma sala e conversam, toda semana, por um período de tempo determinado, até que em algum momento uma delas sai pela porta transformada, sem ser atormentada pela dor, paralisada pelo medo ou esmagada pelo desespero. Por que isso acontece? O fenômeno é ainda mais intrigante se considerarmos o grande número de terapias oferecidas e os métodos conflitantes que eles costumam empregar. Alguns terapeutas nem falam a maior parte do tempo, deixando o silêncio arrancar verdades desconfortáveis ​​de seus clientes; outros dificilmente param entre sequências estruturadas de exercícios e tarefas de casa. Em mais de 400 psicoterapias disponíveis hoje, o profissional pode assumir a forma de um curandeiro, um confidente, um especialista clínico, um coach de condicionamento mental ou qualquer combinação deles. Nos últimos três anos, conversei com dezenas de terapeutas de várias escolas, tentando entender como a terapia funciona. A maioria dessas conversas me fez sentir que nem eles sabiam explicar de maneira convincente como as pessoas se curam. Para complicar, numerosos estudos nas últimas décadas chegaram ao que parece uma conclusão contra-intuitiva: que todas as psicoterapias têm efeitos aproximadamente iguais. Para muitos pesquisadores, a razão mais profunda pela qual nenhuma psicoterapia parece oferecer vantagens únicas sobre qualquer outra é que todas elas funcionam por causa de elementos compartilhados. A principal delas é a relação terapêutica, conectada a resultados positivos por uma riqueza de evidências. O vínculo emocional e a colaboração entre cliente e terapeuta - chamada aliança - emergiram como um forte preditor de melhoria, mesmo em terapias que não enfatizam fatores relacionais. O que acontece entre o cliente e o terapeuta vai além da mera conversa e é mais profundo do que o tratamento clínico. O relacionamento é maior e mais primitivo, e se compara aos avanços do desenvolvimento que ocorrem entre mãe e bebê. Estou me referindo ao apego. A teoria do apego tem suas raízes no psicanalista britânico John Bowlby, que na década de 1950 combinou teoria evolutiva e psicanálise em um novo paradigma. Assustado com a falta de rigor acadêmico de sua profissão, Bowlby se voltou para a crescente ciência do comportamento animal. Experimentos com macacos recém-nascidos (alguns tão cruéis que nenhum conselho ético os permitiria hoje) contestaram a noção predominante de que os bebês veem suas mães principalmente como fonte de alimento. Bowlby argumentou que a busca por conforto ou segurança é uma necessidade inata: evoluímos para buscar apego a cuidadores "mais velhos e mais sábios" para nos proteger do perigo durante o longo período de desamparo conhecido como infância. A figura do apego, geralmente um ou ambos os pais, torna-se uma base segura a partir da qual explorar o mundo e um refúgio seguro para o qual retornar para o conforto. Pesquisas sobre a teoria do apego sugerem que as interações precoces com os cuidadores podem afetar drasticamente suas crenças sobre si mesmo, suas expectativas dos outros e a maneira como você processa as informações, lida com o estresse e regula suas emoções quando adulto. Por exemplo, filhos de mães sensíveis desenvolvem apego seguro, aprendem a aceitar e expressar sentimentos negativos, apoiam-se nos outros em busca de ajuda e confiam em sua própria capacidade de lidar com o estresse. Por outro lado, filhos de cuidadores insensíveis formam apego inseguro. Eles ficam ansiosos e facilmente angustiados com o menor sinal de separação de sua figura de apego. Mães duras ou desdenhosas produzem bebês esquivos, que suprimem suas emoções e lidam apenas com o estresse. Por fim, as crianças com cuidadores abusivos ficam desorganizadas: alternam entre enfrentamento esquivo e ansioso, se envolvem em comportamentos estranhos e geralmente se machucam. Não é difícil ver como esses padrões de apego podem prejudicar a saúde mental. Tanto o enfrentamento ansioso quanto o evitativo têm sido associados a um risco aumentado de ansiedade, depressão, solidão, distúrbios alimentares e de conduta, dependência de álcool, abuso de substâncias e hostilidade. A maneira de tratar esses problemas, dizem os teóricos do apego, é através de um novo relacionamento. Nessa perspectiva, o bom terapeuta se torna uma figura de apego temporário, assumindo as funções de uma mãe nutridora, reparando a confiança perdida, restaurando a segurança e injetando duas das principais habilidades geradas por uma infância normal: a regulação das emoções e uma intimidade saudável. Na terapia, depois de um tempo, os clientes internalizam o calor e a compreensão de seu terapeuta, transformando-o em um recurso interno para atrair força e apoio. Uma voz nova e compassiva brilha na vida, silenciando a do crítico interno - ele próprio um eco de figuras insensíveis do apego anterior. Mas essa transformação não é fácil. Como escreveu o poeta WH Auden em The Age of Anxiety (A era da ansiedade): "Preferimos ser arruinados do que mudados". É o trabalho do terapeuta orientar os clientes enquanto eles viajam em águas desconhecidas, ajudando eles permanecem esperançosos e persistirem através da dor, tristeza, raiva, medo, ansiedade e desespero que possam precisar enfrentar. Fonte: Elitsa Dermendzhiyska, para The Guardian Síntese: Equipe Plenae Leia o artigo original aqui .

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Nutrição: da genética à mesa

A alimentação é muito mais do que temos lido nas manchetes por aí. E ainda temos muito o que avançar como sociedade para chegar em uma compreensão total de sua importância e alcance.

23 de Abril de 2018


Frederico Porto foi um convidado mais do que especial: começou participando da curadoria das palestras e, no meio desse processo, acabou sendo convidado para ser um palestrante. Quando começamos a falar tanto em alimentação, percebemos que ele contribuiria muito com sua experiência e ponto de vista. “Fast, mas saudável”, foi uma das ideias extremamente complexas que, passadas por Fred de maneira simples, mudou nossa maneira de encarar nossos pratos de comida.

ALIMENTAÇÃO: MUITO FALADA, POUCO ESTUDADA

Matérias e mais matérias são publicadas diariamente falando sobre o poder da alimentação. Ora é uma dieta que está na moda, ora é um alimento que caiu no gosto da mídia. A verdade é que existe uma grande confusão nos estudos de alimentação no mundo todo.

Infelizmente, a maioria deles traz manchetes simplistas como a clássica matéria estampada em uma das mais importantes revistas do mundo em 2012, que dizia, em uma associação muito pouco científica, que “a quantidade de ganhadores do prêmio Nobel em um país era diretamente ligada à quantidade de chocolate consumida nele”. Isso porque alimento vende e a mídia gosta de simplificar tudo.

Mas a alimentação é muito mais do que temos lido nas manchetes por aí. E ainda temos muito o que avançar como sociedade para chegar em uma compreensão total de sua importância e alcance.


COMO A ALIMENTAÇÃO PODE INFLUENCIAR A GENÉTICA?


Apenas para citar dois exemplos, podemos falar de dois casos no mundo animal que nos mostram de maneira simples a relação direta do alimento com o desenvolvimento do corpo. As abelhas, por exemplo: a única diferença entre uma abelha-rainha, que vive 6 anos, e uma operária, que vive 5 semanas, é o alimento. A rainha come geleia real e as operárias não.

Outro exemplo é o Agouti mice (uma espécie de rato desenvolvida para estudos): um pesquisador descobriu que ao alimentar uma mãe da espécie com ácido fólico, ela gerava um ratinho marrom e pequeno, diferente do rato maior e alaranjado comum à sua espécie.

Como pode um alimento, algo tão simples quanto um nutriente, mudar a expressão genética de um ser vivo? Graças à interação altamente complexa que existe entre o que comemos e o que somos.

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO À MESA


Será possível mudar as reações de nosso corpo com mudanças na alimentação? Em palestra, Fred inspira a tentar. Para isso, é importante mudar o raciocínio quando o assunto é comida. É preciso entender por que comemos. Não comemos apenas para sobreviver. A biologia é sim um ponto importante – dependemos de comida para viver.

Mas fatores como contexto psicológico e sociocultural também são fundamentais. Projetamos muitas cargas emocionais em nossa comida. Somos seres sociais e devemos levar em consideração que comida é também uma fonte de prazer social, de se estar com o outro.

Da mesma maneira, o alimento é um importante fator de diferenciação de cada sociedade e estilo de vida, de pequenas tribos urbanas a grandes sociedades e religiões. É preciso entender como comemos. Nosso corpo se sente saciado de duas formas: quando o estômago fica cheio ou quando o paladar para determinado sabor se esgota (por exemplo, comemos salgado até saciar as papilas de sal, mas abrimos espaço para a sobremesa tranquilamente).

Nesse ponto, um dos segredos para comer melhor tem a ver com o conceito de mindfulness: é preciso comer mais devagar. Quem deveria determinar o ritmo da comida é o maxilar, e não o garfo. Devemos sentir cada sabor e aproveitá-lo. É preciso entender o quanto comemos. Comemos muito, hoje mais que nunca. E sim, mais do que precisamos.

Apenas para termos uma base de comparação, o consumo de açúcar no Brasil no ano de 1700 era de 2 kg por ano. Em 1800, passou para 9 kg. Em 1900, 45 kg. Em 2000, 180 kg. Um homem da caverna, para ingerir a quantidade de açúcar presente em 1 litro de refrigerante, teria que chupar 3 metros de cana de açúcar! Com isso em mente, é fácil nos confundirmos achando que basta reduzir a quantidade de alimentos para melhorar nossa saúde.

Porém, o cálculo é mais complexo do que a simples soma ou subtração de calorias. O que nos leva ao próximo ponto. É preciso entender o que comemos. Temos três grandes fontes de energia: proteínas, gorduras e carboidratos. Os dois primeiros grupos contêm alimentos essenciais, ou seja, substâncias que não produzimos naturalmente no nosso corpo e que por isso devemos ingerir, para um funcionamento correto do nosso organismo e uma vida mais saudável. 

Mas a notícia que vai mudar seu jeito de enxergar seu próximo pão com manteiga é a seguinte: não existem carboidratos essenciais. Todo tipo de carboidrato é produzido em nosso corpo e por isso esse grupo deveria ser consumido em muito menor quantidade do que a que consumimos hoje. Em teoria, não precisaríamos buscar carboidratos fora do nosso corpo. E o mais complicado disso tudo é saber que vivemos em uma sociedade em que o carboidrato e o açúcar são os reis!

O GRANDE DESAFIO DE LER OS RÓTULOS


Estamos acostumados à cultura das calorias. A conta parece simples: quanto mais baixo o teor de calorias, mais “light” é o alimento. Certo? Errado. A conta é muito mais complexa que essa. É bom, sim, atentar às propriedades calóricas. Porém, tenha em mente que caloria é uma criação de laboratório, apenas uma medida para ser usada como um parâmetro.

Mais importantes que as propriedades calóricas são as propriedades nutritivas. Lembre-se que um biscoito pode ter menos calorias que uma fruta, mas a fruta vai nos encher de muito mais nutrientes e nos alimentar de verdade. Mas o mais importante para nossa sociedade moderna é ele: o índice glicêmico. Esse índice nada mais é do que a rapidez com a qual o alimento é absorvido pelo nosso organismo. É ele o responsável pelo sobrepeso, triglicérides e muitas doenças da sociedade moderna.

Por quê? Quando um alimento é absorvido muito depressa, produz muita insulina. Ela sobe muito rápido e quanto mais alta fica,  mais inibe a capacidade da célula de se esvaziar de gordura e transformá-la em glicose. Com a constante ingestão desses alimentos dia após dia, gordura é estocada e ganhamos peso. O resultado: muita gordura estocada, mas uma fome constante. Uma verdadeira bola de neve.

SEJA REALISTA, COMA COMIDA REAL


Hoje, muito se fala de problemas como intolerância a glúten e lactose. Esse tem sido um debate polêmico, já que ainda não existe um estudo que comprove que o número de pacientes com esses problemas realmente aumentou nos últimos tempos, ou se o que aumentou foi o número de diagnósticos.

Porém, um ponto chama a atenção: os alimentos industrializados têm aumentado cada vez mais a quantidade de glúten e substâncias químicas em suas fatias, caixinhas e latinhas. Isso favorece sim a criação de alergias e sensibilidades. E sabe-se lá quantas outras doenças.

O doutor Frederico Porto não defende uma dieta específica como a correta a ser seguida para uma nutrição ideal, mas enfatiza que quanto mais simples e pura a comida, menos industrializada e acima de tudo com menor índice glicêmico, melhor ela faz para nossa saúde.

Entretanto, de nada adianta esvaziar a geladeira e inventar dietas difíceis de serem seguidas na vida em sociedade. Uma dieta deve ser prática. Acima de tudo, precisamos ter prazer na alimentação. É bom saber que prazer é uma adaptação hedônica. Ou seja, a primeira bola de sorvete de chocolate é a mais gostosa. A segunda e a terceira não são mais tão saborosas assim. Isso porque logo nos acostumamos com elas, já passou o primeiro impacto do prazer.

O ideal é comer com mais atenção para experimentar apenas essa primeira parte, a mais gostosa. Assim, fica fácil deixar de lado o excesso, que nem é assim tão prazeroso, comer melhor e, como resultado, quem sabe caminharmos para uma vida madura, com a sabedoria da idade, a capacidade cognitiva da experiência e a energia de uma pessoa jovem em um corpo saudável. A combinação perfeita.

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