Para Inspirar
Ainda que de início ela pareça difícil, com o tempo ela vai se tornando mais fácil, automática e muito benéfica para você
7 de Setembro de 2020
Refletir: verbo transitivo indireto e intransitivo que, segundo definição do dicionário moderno de português Michaelis, significa “pensar com calma e ponderação; atentar, considerar, pesar, ponderar, reflexionar”. É ter esse olhar demorado sobre um mesmo acontecimento, seja ele qual for.
Autoreflexão, portanto, é olhar para dentro de si, para suas atitudes cotidianas que possam ou não ter afetado o outro, com parcimônia e a demora que a prática pede. Ao ler essa frase, muitos de nossos leitores podem ter apresentado um bloqueio imediato.
Isso porque a prática realmente não é das mais simples. Como dissemos nessas matérias, o autoperdão e o autocuidado demandam tempo, profundidade, comiseração, compaixão e, sobretudo, reflexão. Portanto, é preciso dar um passo para trás: não há mudança sólida quando o assunto é autoconhecimento e mente sem longas horas dedicadas ao pensar.


O assunto da autoreflexão é tão crucial e modificador que alcançou os corredores das empresas. Falar sobre si e seus atos depois de conseguir significá-los dentro de você mesmo é não só positivo, como incentivado por muitos líderes. Como é o caso da executiva de operações e coach para equipes, Jennifer Porter.
Em artigo escrito para a revista de negócios de Harvard, a americana enfatizou a importância de mergulhar dentro dos nossos próprios universos, medos, inseguranças, dúvidas, entre outros sentimentos. Para ela, “os líderes mais difíceis de aconselhar são aqueles que não refletem – principalmente os que não refletem sobre si mesmos”.
Pode-se dizer que, aquele que reflete é aquele que aprende, pois está disposto a encarar os episódios vividos de maneira criteriosa e enxergar além do que se vê. Porter acredita que, para a reflexão ser de fato útil, é preciso que o sujeito esteja realmente disposto a se tornar mais sábio após esse tempo imersivo.
Mas quais são seus ganhos reais? Para além da mudança de postura perante ao outro, refletir também gera mais empatia, atenção, foco e capacidade de mudança. Para Porter, “a reflexão dá ao cérebro a oportunidade de fazer uma pausa em meio ao caos, desembaraçar e classificar observações e experiências, considerar diversas interpretações possíveis e criar um sentido.” Esse sentido, por sua vez, é crucial para o crescimento contínuo, pois se transforma em aprendizado, e pode embasar futuras atitudes mentais e ações concretas.
Em um contexto trabalhista, a reflexão pode levar a um melhor rendimento e otimização de tarefas, além de maior capacidade em melhorar suas funções cada dia mais. Porter cita duas pesquisas, uma realizadas por estudiosos italianos em call centers que apontou uma melhora de 23% no desempenho dos funcionários que refletiam ao final do dia.
A outra, realizada com trabalhadores do Reino Unido, apontou que todos aqueles que usavam o momento do trajeto para pensar e planejar seu dia eram mais produtivos e felizes, além de menos fatigados em comparação aos outros.
Ainda em seu artigo, a pesquisadora procurou entender porque há tanta resistência acerca do tema se ele parece tão positivo para o indivíduo quando o assunto são líderes de grandes empresas.
Para ela, esses líderes não se empenham em autorefletir pois: não entendem ou não gostam do processo, não gostam dos resultados, assumem um viés em relação à ação e não conseguem ver um bom retorno sobre o investimento de tempo dedicado a isso.
A reflexão ainda obriga-os a desacelerar por um instante, coisa que poucos fazem ou gostam de fazer, e ainda os colocam em uma posição mais humilde, de igualdade para com os outros funcionários - lugar que nem todos gostam de ocupar.
É preciso também “adotar uma atitude mental de curiosidade e ‘esquecer’ o que sabe, tolerar a confusão e a ineficiência e assumir responsabilidades pessoais. O processo pode levar a insights valiosos e até descobertas – além de sentimentos de desconforto, vulnerabilidade, resistência e irritação” explica.
Os insights advindo desse pausa podem evidenciar, por exemplo, situações onde ele poderia ter seguido por um outro caminho e obtido mais sucesso. Tomar consciência disso é também olhar para suas próprias falhas e insucessos.
Como começar a fazer
É importante frisar que, apesar de tomarmos as reflexões de Jennifer Porter como base, a autoreflexão deve ser feita não só em contexto de trabalho como ela dá o enfoque, mas em todas as suas relações. Identifique, primeiramente, o porquê de você ter evitado por tanto tempo esse momento, e o que te afasta tanto dessa prática.
Uma vez mapeado o seu desconforto, é hora de trabalhá-lo. Enxergue-o como se fosse um dado de 6 faces, pois assim são nossos problemas - em especial os que envolvem terceiros. Nunca há um caminho só a ser seguido, ou uma só verdade a ser contada.
Questões práticas podem ser levantadas também durante esse momento: por que eu fiz o que fiz? O que me levou a optar por essa resolução? Ela afetou outras pessoas? O que eu poderia ter feito de diferente? Como posso melhorar minha conduta em um caso semelhante?
Agendar um horário específico do seu dia no começo pode te ajudar a transformar esse momento em um hábito, assim como estabelecer um tempo mínimo. Comece com alguns minutos, e vá aumentando conforme sentir necessidade. Com o tempo, refletir será parte inerente de seus dias, algo que precede toda e qualquer ação.
Por fim, caso não tenha conseguido, não hesite em pedir ajuda profissional. Terapias são ótimos ambientes para isso, a escuta qualificada de um bom psicólogo pode ser o pontapé inicial que você precisava para começar. O importante é não desistir, e ter em mente que essa é uma parte importantíssima de um processo maior de autoconhecimento - que você levará por toda a sua vida.
Para Inspirar
Apesar de ser um velho conhecido, há ainda muitas dúvidas e tabus em torno do assunto. Celebrando o Dia Internacional de Conscientização do Autismo, conheça mais sobre!
2 de Abril de 2022
Autismo: você certamente já ouviu falar nesse nome. O Transtorno de Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica reconhecida pela DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais em tradução), uma espécie de “bíblia” que guia tanto psiquiatras como neurologistas, psicólogos e outros especialistas.
Trata-se de uma condição de saúde que pode ser apresentada em três níveis de suporte diferentes. O autismo afeta a capacidade de comunicação social (socialização e comunicação verbal e não verbal) e comportamento (interesse restrito ou hiperfoco e movimentos repetitivos) do indivíduo, e começa a se manifestar entre 12 e 24 meses.
Porém, justamente por conta de seus níveis, também conhecidos como “espectros”, há muitas pessoas que vivem toda uma vida sem saber que são autistas. “Há autistas diferentes que apresentam os sintomas de autismo de formas diferentes, que têm experiências de vida e apresentações clínicas diferentes”, explica Rachel Monteiro Lorencini, psiquiatra em formação pelo CBI of Miami, com foco em neurodiversidade e também em psiquiatria e saúde mental da infância e adolescência na mesma instituição.
Desde a última versão do DSM, o DSM-5, diminui-se o leque do que era considerado autismo, como era o caso da Síndrome de Asperger - condição vivida por Rafael Mantesso, personagem da quarta temporada do Podcast Plenae. Até o DSM 4, o diagnóstico do autismo poderia receber o nome de Transtorno Autista, Síndrome de Asperger, Transtorno desintegrativo infantil ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
Agora, essas quatro nomenclaturas recebem um único nome: Transtorno do Espectro do Autismo. O que muda na prática é que, claro, os autistas são diferentes e demandam suportes diferentes. “O próprio nome discriminado no DSM-6, ‘nível de suporte’ já informa do que se trata: o quanto que aquela pessoa que foi diagnosticada com transtorno do espectro autista precisa de suporte profissional ou de uma pessoa, de um conhecido, amigo, alguns autistas encontram esse suporte no cônjuge, familiares, etc”, diz Rachel.
Este artigo explica o que mudou realmente da DSM-4 para a DSM-5 no que diz respeito ao autismo. Vale lembrar que esse manual é feito por médicos do mundo inteiro e que ele não é lançado todo ano: o último foi feito em 2013.
Os níveis de suporte
Eles se dão em duas categorias: interação/comunicação social e comportamento restritivo/repetitivo. Os níveis de suporte vão do 1 ao 3, sendo que o 1 demanda pouco suporte e o 3 muito. O nível 2 é um nível intermediário. Veja a lista completa neste artigo do Portal de Medicina Brasileiro.
“Os níveis de suporte não são fixos, estáticos, então pessoas autistas podem migrar e evoluir, pode receber assistência ou um ambiente mais favorável e caminhar nesses níveis para um suporte menor. Mas da mesma forma, em ambientes e situações adversas, a pessoa autista pode migrar para níveis de suporte maior”, explica a especialista.
“Em relação às crianças, nem sempre é fácil definir os níveis de suporte, principalmente nessa primeiríssima infância até os 3 anos, crianças muito pequenas. Às vezes a gente espera um pouco mais pra definir isso, ou questões como se ela é uma criança verbal ou não verbal, se tem algum prejuízo ou não na fala e se tem algum déficit ou não intelectual”, diz.
Fugindo do estereótipo
Quando falamos em espectro autista, uma imagem de muita limitação e prejuízo vêm à nossa cabeça. Mas é importante lembrar que nem sempre é assim, e que como foi dito no começo desse artigo, há autistas que passam uma vida inteira sem o seu diagnóstico, constituem família, trabalham e apenas ignoram suas dificuldades específicas, como se fosse uma característica pessoal.
“Quando falamos em estereótipo, estamos falando de pessoas que não são produtivas. Infelizmente vivemos em uma sociedade que tem muito mais facilidade de identificar a dificuldade ou prejuízo do outro quando ele não consegue produzir academicamente, ambiente de trabalho ou num contexto familiar. Então está muito associado ao capacitismo, que diz respeito à capacidade dessa pessoa de produzir algo, de contribuir algo no trabalho ou no estudo”, diz Rachel.
Ou seja: se a pessoa apresenta um alto desempenho em algum fator de sua vida, ela ainda assim pode ser vítima de um tipo de sofrimento da ordem da comunicação social ou do comportamento, mas será negligenciada, pois entrega o que a sociedade espera dela.
“Uma pessoa que articula bem a fala não quer dizer necessariamente que ela tenha uma habilidade plenamente desenvolvida de socialização ou de interação social. Isso porque a interação envolve comportamentos de reciprocidade, de você perceber o outro, modular, modificar o seu comportamento de acordo com a resposta do outro. Essas pessoas tidas como ‘funcionais’ geralmente têm a capacidade de articular fala e de expor ideias, mas infelizmente estão em sofrimento, porque elas falham em se relacionar, não conseguem manter relações duradouras e muitas vezes não sabem o porquê”, explica.
O próprio termo funcional já é um adjetivo que pode ser ofensivo, porque parte-se do princípio de que todos temos que funcionar e operar na mesma frequência, quando na verdade, somos todos diferentes em nossas particularidades. Mas Rachel ainda nos lembra de evitar termos como déficit, falho, prejuízo e preferir, no lugar deles, típico/atípico, diverso, recíproco/não recíproco.
Outro ponto que pode fugir do estereótipo do que se pensa quando se fala em autismo são as pessoas que possuem um hiperfoco em um só assunto, com muita intensidade, e em temas que nem sempre correspondem ao interesse geral da população ou dos seus semelhantes, que possuem a mesma idade, por exemplo. Isso entra no ponto “interesses restritos e repetitivos”, também descrito no DSM-5.
“Eles também podem estar relacionados a comportamentos ritualizados, como é o caso do meu filho, que é autista. Ele tinha seletividade alimentar, que pode ser entendida em alguns pontos como cognitiva, porque ela diz respeito muitas vezes a um layout ou uma organização específica do prato. Teve uma época que ele escolhia o formato da pipoca que ia comer ou só comia frutas seguindo o mesmo ritual da escola dele. E se esse ritual fosse ferido, ele se desorganizava muito, ficava extremamente irritado”, conta a psiquiatra.
Caminhos de tratamento
Talvez o mais conhecido dos tratamentos seja o ABA, que vem do inglês “Applied Behavior Analysis” ou Análise do Comportamento Aplicada. Por essência, o ABA trabalha no reforço dos comportamentos positivos por meio da recompensa. Antigamente, o método utilizava-se também da punição, mas hoje, com o debate da humanização cada vez mais em foco, não há mais essa punição tão esclarecida.
“Mas não recompensar pode ser também um tipo de punição”, comenta Rachel. “Ele tem um viés mais comportamentalista e surgiu de uma perspectiva que tinha como meta o condicionamento mesmo, então pegar uma criança com um comportamento inadequado e através de um sistema de recompensas fazer com que essa criança tenha adequado. Há até gráficos onde as crianças são ‘medidas’ com base no objetivo que se espera. Ele já demonstrou resultados positivos, mas é bastante questionado”.
Por ser uma condição que pode se manifestar de múltiplas formas, há também, múltiplos caminhos. Rachel aponta a terapia de transtorno de processamento sensorial aplicada como um caminho novo e que tem sido revolucionário, além da terapia optométrica, ainda um pouco inacessível pela falta de profissionais capacitados, mas que promete bastante. Musicoterapia e equoterapia também são caminhos alternativos bastante promissores.
“A terapia vai sempre ser direcionada a partir daquilo que você observar que aquela criança pode ter ganhos, então o fonoaudiólogo pode trabalhar a parte de fala, linguagem, comunicação. Terapeuta ocupacional pode trabalhar a parte da vida diária, a parte de interação sensorial. O psicólogo pode trabalhar estratégias de regulação emocional. Sempre vai ser um trabalho interdisciplinar, tendo como meta o aprendizado e principalmente o conforto do paciente”, diz.
E por fim, a escola, local onde a criança passa grande parte do seu dia comprometida com aquele ecossistema que deve ser de inclusão, nunca de exclusão. Estar atento à instituição escolhida é dever primordial dos pais que possuem filhos com espectro autista. E para adultos que se enquadram nessa condição, buscar um ambiente de trabalho que acolha suas limitações. Acolhimento: essa deve ser a palavra de ordem quando o tema for autismo.
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